domingo, 10 de agosto de 2014

Quatro filmes bons para ver sozinho


O título parece meio egoísta, mas é verdade. Já repararam que tem coisa que é melhor fazer sozinho? E não falo de necessidades fisiológicas.

Uma vez, acho que comentei que separo músicas que escuto quando quero ficar sozinha e as que escuto quando quero abraçar o mundo - vivendo entre a introversão e a extroversão. A idéia com os filmes é a mesma. Normalmente, eu gosto de fazer muuuuita coisa acompanhada, coisas simples como ver TV, ficar no computador, na cozinha, ir a qualquer lugar, mas percebo que muita gente acaba fazendo disso uma obrigação. De repente, a idéia de ir ao cinema sozinho, a uma sorveteria ou mesmo um café desacompanhado soa quase alienígena, como se não houvesse uma forma de entretenimento que não fosse em companhia de alguém. De repente, você ficar no ônibus com seu fone de ouvido e um livro no colo - um convite perfeito à solidão - soa estranho e até mesmo antipático quando, na realidade, você só quer ouvir melhor seus pensamentos. A solidão, não a permanente - a momentânea - é vista como um erro circunstancial, um problema no servidor.

Estilo Admirável Mundo Novo, sabe?

Então acho que o post é mais um protesto a esse tipo de visão excessiva e forçadamente coletivista. A solidão é algo realmente horrível quando você de fato a vive, mas isso é porque existe uma solidão pioneira em você mesmo que o impede de olhar para o mundo; porém, quando você está em paz com os próprios pensamentos, tanto a solidão dos afazeres quanto a companhia constante soam como um paraíso indiscernível.

Há alguns filmes que eu vejo e que me lembram outras pessoas, e eu fico querendo ver com essas pessoas; há estilos de filmes que você precisa ver com alguém; e há aqueles que você pensa que dificilmente alguém vá querer ver até o fim com você. 

Tem sempre aquele filme que parece bobinho de tão despretensioso, e que soa convidativo porque está na sua vibe, mas não na vibe da sua amiga, entende? Daí, nada mais clichê e chato, você em silêncio, curtindo, e a pessoa "nooooossa, que improvável" ou então "ai, que preguiça desse filme, pode mudar de canal?"

Nesse caso, o negócio é fazer a sua própria lista e se entregar a esse deleite sem pudor. Escolha os que você veria com alguém e os que veria solitariamente.

Por acaso, sem pretensão alguma, vi alguns que curti ver sozinha, de bobeira.

Separei quatro.

E fiz umas montagens meio capengas porque queria muito brincar no paint.

While You Were Sleeping (Enquanto Você Dormia)
Diretor: Jon Turteltaub
Ano de lançamento: 1995




Esse eu vi na sessão da tarde com a minha mãe, numa tarde em que não tínhamos nada para fazer. Revi nos últimos dias. É bem água-com-açúcar e recebeu boas críticas em sua época; atualmente, não é exatamente um programa pré-agendado, por isso quando me deu vontade de ver, eu procurei no netflix, sentei e vi sozinha. Esses filmes assim, de comédia romântica bem leve, eu prefiro ver sozinha, porque são incrivelmente levianos, convidando a um devaneio muito particular, ou mesmo a um não-pensar.


Ele foi um sucesso na época em que foi lançado, e a Sandra Bullock está maravilhosa (inclusive o figurino é perfeito!); ela encarna a atrapalhada e solitária Lucy (♥), que tem um amor platônico por um cara bonitão, Peter, que passa todo dia por ela no metrô (ela trabalha como coletora em um guichê). Na véspera de Natal, ele sofre um acidente, e ela acaba por salvar sua vida. No hospital, onde ele fica em coma, ocorre uma pequena confusão que resulta no fato de a família do rapaz pensar que ela é sua noiva, e todos imediatamente a acolhem em seu seio familiar; nesse meio-tempo, Lucy precisa lidar com a necessidade de contar para essa família que não é noiva do cara - o que é difícil, pois todos ali são fofos e a tratam muito bem, justo ela, que é órfã e carente - e também se esquivar da inicialmente indesejável presença de Jack, o irmão de Peter, o único que desconfia que ela não é noiva do irmão coisa nenhuma e a segue feito um ganso raivoso.

Simplesmente sou apaixonada por esse filme, e o vejo sempre que posso.

The Breakfast Club (O Clube dos Cinco)
Diretor: John Hughes
Ano de lançamento: 1985




Ao contrário do anterior, a tradução do título ficou péssima, mas não dá para culpá-los; como seria o certo, "O Clube do Café-da-manhã"? "O Clube do Desjejum"? Em todo o caso, é melhor que o vago "dos cinco".

E, mais do que o anterior, esse é um clássico dos clássicos mais clássicos, mais precisamente um clássico cult. O perigo de nascer a partir dos anos 90 e ver clássicos dos anos 60, 70 e 80 é correr o risco de manter expectativas altas demais e se decepcionar, como amigos meus fizeram com Ferris Bueller's Day Off; pois bem, com Breakfast Club é a mesma coisa. Gente, nem sei por que eu gostei desse filme a ponto de recomendá-lo!




Acho que foi pela atuação dos jovens. Os cinco atores brilharam, fizeram o filme. John Hughes criou um roteiro bom e enxuto e deixou o trabalho para os cinco... e ficou ótimo. Basicamente, a história se passa toda em um colégio, durante o sábado, em que cinco jovens de clubes diferentes na escola estão de castigo e são obrigados a pensar sobre a própria vida; eles passam as oito horas inventando o que fazer e acabam interagindo. Os arquétipos são: a patricinha, o esportista, a esquisita, o encrenqueiro e o nerd. O colégio, por sinal, foi o mesmo onde foi filmado Ferris Bueller's Day Off.

A atuação dos meninos é impecável. Achei o roteiro simples, nada genial ou inferior, mas foram tão equilibradas a história e a atuação que dá para entender por que esse drama é um clássico e também considerado um dos melhores filmes adolescentes de todos os tempos.




Under the Tuscan Sun (Sol o Sol da Toscana)
Diretor: Audrey Wells
Ano de lançamento: 2003




Acho que esse não é tão famoso quanto os outros - pelo menos, não é um clássico e nunca vi passar na sessão da tarde. Baseado em um livro, vi por acaso no netflix e resolvi ver porque supus, certeiramente, que mostraria tomadas lindas da Toscana.




É a história de uma escritora que, após um complicado divórcio em que acaba perdendo o próprio apartamento, resolve ir para a Toscana, região central da Itália, onde impulsivamente acaba comprando uma casa charmosa, enoooorme e antiga. E decide que não pode voltar para sua vida em São Francisco.

Isso. Escritora. Recomeço de vida. Fazer de malas. Comprar um casarão na Toscana sem nem saber falar o italiano.

É uma história que trata de recomeço. E um recomeço na Toscana, quem não gostaria? ♥

Uma das poucas críticas negativas que li fala que o cenário é todo lindo, mas que o filme dá muita preguiça porque os diálogos se arrastam e não vão a um lugar algum. Realmente, os diálogos não são a força do negócio, mas se você está light, em uma época de transição, de mudanças internas e quer limpar a vista com ótimas paisagens, esse é o filme certo. E você pode aproveitar para rir dos micos pelos quais a personagem passa, e achar graça dos momentos de incompreensão que ela tem da língua italiana que você não tem porque o italiano lembra um pouco o português.

Não que você fosse se virar bem estando na pele dela, mas quando você vê o filme, normalmente entende antes dela o que os italianos falam.

Por exemplo, eu achei muito fofa a cena em que ela comenta que "to give a birth", em italiano, significa "dar à luz", o que ela acha simplesmente lindo e profundo... e essa expressão, para um brasileiro, não é novidade, porque é o que nós falamos também. Mas foi legal pensar sob uma nova perspectiva...

Silver Linings Playbook (O Lado Bom da Vida)
Diretor: David Russel 
Ano de lançamento: 2012




Recomendação pop de um amigo cult.

Esse título é muito polêmico para mim. Silver lining, que significa "cordão de prata" ao pé da letra, é o nome dado ao contorno que aparece em uma nuvem quando está à frente do sol, trazendo um sentido otimista, algo como uma luz no fim do túnel, ou um sol após a chuva, algo que sinaliza a coisa boa que está escondidinha, mas que nunca se vai realmente. E "playbook" seria algo como uma cartilha. Então, a tradução seria "Cartilha para um 'silver lining'", ou cartilha para "um raio de sol" ou para "uma luz no fim do túnel". Traduções são muito complexas justamente por essa cultura envolvida que você não traduz na mesma quantidade de palavras. "O Lado Bom da Vida", embora capte um pouco do sentido, é ainda muito vago para transmitir a dimensão da expressão silver lining.

Esse filme eu vi pela primeira vez sozinha, mas gostei tanto que, quando passou na televisão, eu pedi gentilmente para o namorado agüentar firme e ver até o fim - e ainda bem, porque ele gostou e entendeu quando eu disse que não seria um romance tradicional.

Isso porque o casal não é bem tradicional, já que o cara tem transtorno bipolar e a garota tem suas complexidades psicológicas. E, como o namorado definiu bem, as cenas são gravadas seguindo o ritmo de um surto psicótico - tudo acontece muito rápido, os diálogos, as cenas em close, e a cena evolui de um jeito célere.

Esse filme é bem recente, e rendeu o Oscar de Melhor Atriz à queridinha Jennifer Lawrence, atriz que eu não curtia à primeira vista, mas que hoje considero diva. Não é por menos, a atuação dela está realmente ótima.

É a história de um cara, Pat, que acaba de deixar um centro psiquiátrico e volta para a casa dos pais, que estão um pouco perturbados com essa mudança na rotina e com o retorno do filho problemático. Ele está obcecado pela idéia de retomar o casamento com sua ex-esposa, e está determinado a reconquistá-la, procurando em si autocontrole - e o ambiente em que vive acaba testando muito sua capacidade.

Por meio de um amigo, acaba encontrando Tiffany, uma jovem viúva viciada em sexo. A amizade que os dois acabam desenvolvendo coloca em prática o lado conturbado dos dois, mas também os estimula a desenvolver mútua compreensão até alcançar um equilíbrio dinâmico de uma inesperada amizade.

O mais interessante do filme é que, ao final, se você olhar bem, vai perceber que Pat, o que sai de um hospício no começo, não é exatamente o cara mais louco da roda. Percebendo o meio em que vive e os hábitos e as manias de todos ao seu redor, dá para entender como tudo no mundo é relativo e, portanto, sempre admite um silver lining.

Essa é a lista de filmes leves, aleatórios e interessantes... e agora procuro outros na mesma faixa!

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