quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Sobre mudar de faculdade #1

R.E.M. series by Ibai Acevedo
Recebi uma mensagem ontem de alguém perguntando gentilmente como foi minha decisão de largar a faculdade de Farmácia para fazer algo de que eu gostava. Não foi a primeira vez que alguém me perguntou a respeito, mas eu gostei bastante da pergunta. Gostei bastante porque, quando era mais nova, procurava pessoas para perguntar sobre graduação, faculdade, carreira. Fiz isso por muito tempo e queria ser essa pessoa a dar opinião a respeito disso um dia, por isso fico feliz por fazê-lo em forma de post.

Acabei fazendo outro post bíblico que tive que resumir (juro que este é o resumo!) em três partes: como foi minha desilusão, como foi a mudança e o que acredito ser importante pesar na hora de mudar.


Parte I - A Desilusão Bourne

De dez períodos, eu fiz dois em Farmácia-Bioquímica numa das melhores universidades públicas do País - uma grande conquista. Sempre que conto isso para alguém, as pessoas arregalam os olhos e me perguntam como tive coragem de sair; quando olho para o que faço e quem sou e comparo com quem era naquela época, sorrio e digo que não foi tão difícil ter mudado quanto parece.

Abandonar o curso, na realidade, foi uma das melhores decisões que tomei na minha vida.

Acho que dá para começar com o fato de que eu nunca soube, realmente, o que fazer da vida. Era indecisa, e uma indecisa que gostava de ver depoimentos de indecisos numa tentativa de extrair alguma sabedoria daquela indecisão.

Enfim, após um período de cursinho e muitas dúvidas, dei seqüência à fantasia de ser cientista - e Farmácia-Bioquímica é o curso perfeito para isso. Eu sei que existem diversos tipos de cientistas, mas se você pensar naquele estereotipado tradicional dos laboratórios de bio-físico-química que brinca com células, proteínas, reações químicas, princípios ativos etc, saiba que Farmácia é um curso-modelo para esse profissional. Para atuação forense na Polícia Civil também é um ótimo curso; o embasamento físico, químico, matemático e biológico é incrível. Por isso, se a idéia era me tornar cientista, eu estava no caminho certo!

Adorava ciências e matemática desde criancinha; devorava a seção de ciências da coleção Lição de Casa, adorava Química Orgânica e Genética, colecionava tabelas periódicas aos doze anos e as mãos coçavam para brincar em um laboratório de química. Para mim, ser uma cientista era algo bonito, interessante e uma ótima forma de contribuir de alguma forma com o mundo. Se tem uma coisa de que precisamos nesse mundo é de panquecas e gatinhos preguiçosos cientistas.


Alguém se lembra delas? Créditos da imagem

A faculdade era tradicionalíssima, portanto fomos recebidos de forma imponente e logo apresentados a possibilidades de trabalho. Fiquei toda feliz por ter passado no vestibular e logo adquiri suvenires como camisetas, canecas, chaveiros, adesivos do curso... e procurei, nas primeiras semanas, cobrir o vazio profissional/existencial que nascia em mim com a bela perspectiva de ter passado no vestibular. Mas isso não dura para sempre e logo você se defronta com a verdade, que é a sua própria existência, sua própria carreira.

Existe uma diferença gigante entre você se desiludir com a graduação brasileira como um todo e se desiludir com um curso em específico.

Para início de conversa, graduação brasileira (porque não conheço outras) é um trem chato. Principalmente se a universidade for pública. É aula chata, é disciplina chata, é professor ruim. É grade que é mais inchada do que o necessário, é sensação de perda de tempo, é burocracia demais, é ausência de diálogo entre professores que resulta em redundância curricular - aquelas matérias de ementas distintas que na realidade falam a mesma coisa, sabem? É sensação de superficialidade, como se disciplinas não transmitissem o conhecimento proposto. Além dessas questões que dizem respeito à graduação, há também desilusões no campo profissional. É o mercado que não está bom ou que é limitado, é o salário que está baixo, a inflação que está alta, são as condições de trabalho que são precárias... aquela diferença extraordinária entre o que você aprende na graduação e o que aplica na profissão. Além dessas desilusões ora na graduação, ora na profissão, há dificuldades durante a inserção no mercado também - ou seja, na hora de fazer a transição da faculdade para o trabalho. 

Não conheço ninguém, de curso nenhum, que não tenha passado por isso - de cursos tradicionais como medicina, engenharia ou direito a, digamos, "Licenciatura em Moda Vitoriana" (?). Ou a faculdade é abrangente demais, ou é específica demais, ou o mercado paga mal, ou as condições oferecidas são impróprias, ou não há o nicho que você gostaria que houvesse... existe uma realidade em nosso País - talvez no mundo, quero um dia exercitar esse meu lado cosmopolita - em que ocorre um abismo entre sua formação e o que o mercado procura. E a crise é inevitável. Você pode sofrer na hora da transição para o mercado e depois, quando se depara com uma realidade diferente da bolha que denominamos faculdade.

Expectativa: a balança do laboratório precisa ficar em um pedestal isolado fisicamente e cercado por uma bancada quadrada e vazada que a proteja de choques mecânicos, em uma sala reservada especialmente para ela para que influências externas como movimento, vento e pressão não interfiram durante a pesagem.
Realidade: a balança fica entre a porta de entrada e o autoclave e na frente de um termociclador, espremido ao lado da impressora porque não há espaço suficiente.

Expectativa: recomenda-se que cada profissional oriente simultaneamente uma quantidade máxima de três pacientes sem que haja prejuízo no atendimento; para que os pacientes tenham espaço para locomoção, recomenda-se um ambiente silencioso de, no mínimo, 30m² com todos os aparelhos necessários à disposição.
Realidade: um profissional para vinte e cinco pacientes de grupos etários e demandas distintas em uma sala de 20m² com sessenta pacientes  no total e apenas uma coleção de aparelhos disponível.

Expectativa: o teste psicológico deve ser aplicado em uma sala arejada, isolada acusticamente, em uma carteira confortável e com iluminação adequada com temperatura amena.
Realidade: o teste será aplicado em um depósito ao lado do almoxarifado.

Foram parágrafos bem depressivos esses, eu sei, mas são crises superáveis quando você está no local certo simplesmente porque, na minha concepção, a mente humana tem essa capacidade mágica - mítica, mística, CRIATIVA - de encontrar uma saída para a própria crise existencial. Se você internaliza aquilo que faz, se você se apropria daquela formação e da profissão, os defeitos que encontra no caminho são um motivo para você levantar a cabeça e lutar por melhores condições de trabalho, não para desistir de tudo.

Contudo, se você não internaliza essa profissão, a luta deixa de ser sua e se transforma em desespero. Por que lutar por algo com o qual você não se identifica?

Por isso, a desilusão com o sistema acadêmico em si é bem diferente da desilusão com o curso escolhido.

A desilusão com a formação foi uma sensação de estar fora da caixinha - e estar fora da caixinha não tem nada a ver com uma grade curricular diagnosticada com trombose e precisando operar. Não tem nada a ver com uma disciplina chata. 

Na Farmácia, era comum os alunos se sentirem perdidos porque as disciplinas não pareciam estar conectadas entre si - tudo parecia aleatório - até o quarto ano, "quando tudo fazia sentido"; ou seja, o conhecimento se encaixava aí, de maneira tardia. Então, havia crise por conta disso, muita gente estudando, estudando e gritando: "gente, mas o que isso tem a ver com Farmácia? POR QUE ESTOU AQUI? CADÊ A FARMÁCIA? SOCORRO!" - só que a taxa de evasão do curso, de toda forma, sempre foi baixa. Além disso, Farmácia era um curso que recebia muitos indecisos como eu justamente por ser excessivamente abrangente - e esses indecisos acabavam se satisfazendo, no final, ali mesmo.

Por todos esses motivos - abrangência, multidisciplinaridade e fragmentação - era comum que graduandos desse curso não soubessem em que campo atuariam, de modo que eu tentava me identificar com eles. Talvez essa frieza que eu sentia - esse deslocamento, distanciamento ou estranhamento - fosse comum, eu dizia, talvez eu ainda não soubesse a minha área. Talvez essa sensação fosse normal em Farmácia.

Mentira. Apesar de reclamarem do curso como se não houvesse amanhã e botarem defeito em um monte de coisa, meus colegas não tinham vontade efetiva de largar tudo. Eles tinham ânimo para estudar para as provas e mesmo para estudar todos os dias! Havia um brilho no olhar, uma perspectiva de futuro, uma busca constante por possibilidades profissionais - eu procurava um meio de fugir do curso, e eles, de focar em alguma coisa. Eram caminhos opostos.

Realmente não pensavam em outra alternativa. Era aquilo, mesmo.

Mesmo quando reclamavam.

Pode ser que muitos tivessem vontade de largar o curso efetivamente, mas não tivessem a coragem; em todo o caso, eu jamais saberei e também nem é pertinente ao assunto. Eu deveria continuar Farmácia sem a menor vontade só porque outros estariam continuando? Bobagem.

A minha crença, contudo, é de que eles estavam satisfeitos e encaixados, e eu, deslocada e transtornada. A evasão sempre foi baixa por lá e eu fui uma exceção ao sair do curso.

Sentia angústia. Olhava para os lados e não conseguia entender como as pessoas estavam satisfeitas com aquilo e como era possível se formar no Ensino Superior - como tanta gente conseguia? Como era possível suportar a graduação? Como conseguiam trabalhar? Eu, que sempre adorara livros, abria os de Biologia Celular e de Química Inorgânica e não absorvia nada. Achava as gravuras uma droga - sentia falta de livros que não continham gravuras. No caso de ciências bioexatas, a qualidade dos livros se mede pela qualidade das ilustrações justamente porque são mais explicativas; eu as achava um saco porque interrompiam minha leitura e minha concentração. Não que isso importasse; eu não absorvia nada, mesmo. Era como se eu fosse feita de metal frio e duro e nunca absorvesse o calor das aulas e dos livros - nada entrava, nada me aquecia. Sentia o cérebro impermeabilizado a todo aquele conhecimento. Até me sentia burra. E odiava sentir isso.

A verdade é que eu estava infeliz e tinha outros problemas na vida - esse talvez não fosse o maior deles. Só que, ao mesmo tempo, a parte vocacional não estava me ajudando a resolver esses outros problemas. Se eu estivesse com a vida complicada, o lado acadêmico/profissional poderia me segurar à terra, mas não era o que acontecia. Ele apenas me desnorteava.

E nem mesmo a iniciação científica me fez mudar idéia em relação ao que sentia. Foi muito legal e até peguei o jeito, mas ainda me sentia meio vazia. Achar uma coisa interessante é diferente de querer viver em função daquilo pelo resto da vida.

Havia uma coisa errada. Uma graduação significava isso? Ter uma profissão significava isso?

Por que eu não conseguia me apropriar daquilo tudo?

Eu me sentia caloura eternamente, mas as coisas não são assim. Existe uma cultura bobinha de calouro-veterano no nosso País, mas isso não significa absolutamente nada se você está no caminho certo. Se você está orientado, você se sente um graduando como qualquer outro na primeira semana de aula simplesmente porque está no lugar certo. Pode até errar duas vezes o caminho para a cantina, mas sabe exatamente o que pegar para ler quando (enfim) conseguir chegar à biblioteca. Sabe o que perguntar aos professores e aos colegas. Sabe o que perguntar para si mesmo. Você se vê como um profissional em formação.

Eu não tinha isso. Eu me sentia como um corpo frio incapaz de absorver calor e como se houvesse permanentemente uma barreira entre mim e a farmácia. Eu não me via farmacêutica.

Por exemplo, comprei um moletom da Grifinória e uma bata da Corvinal porque são minhas Casas preferidas.

Quando uso o moletom da Grifinória, eu me identifico; me sinto mais forte, me sinto aquecida - ok, é um moletom, e ele não cumpre mais do que a obrigação ao reter calor, mas tem o aquecimento psicológico também. Eu me sinto uma Grifinória, sinto como se conhecesse muito bem a constituição psíquica de um "grifinório", porque a minha é assim.

Quando uso a bata da Corvinal, embora muitos digam que é a minha casa porque sempre fui meio CDF, sinto uma coisa estranha - uma ausência de pertencimento. Corvinal é uma coisa que você admira de todo o coração, mas que não pertence efetivamente a você.

Era mais ou menos isso quando eu usava a camiseta da Farmácia do kit de calouros. Eu nunca me vi farmacêutica - agora que paro para lembrar, nunca falei "nossa, eu vou ser farmacêutica!" Falavam isso de mim, mas nunca falei eu mesma. Na campanha de 5 de maio, em que os graduandos iam para as ruas conscientizar as pessoas sobre questões de saúde como vacinação e prevenção de doenças, eu não fui - por vários motivos, mas o principal foi essa ausência de pertencimento. O objetivo da campanha era resgatar o vínculo entre o farmacêutico, a saúde e a sociedade, tirá-lo da academia e do fundo das farmácias para ter contato com o público - ser um profissional de saúde de fato.

Muitos colegas meus, calouros ainda, compareceram porque se sentiam inseridos no contexto. Lembro-me até hoje de um colega mais adiantado no curso dizer para nós: "por favor, venham para a campanha. Sei que acabaram de entrar na faculdade e que pensam não saber nada, mas vocês sabem, sim, e têm muito para ensinar às pessoas. Como universitários, vocês podem contribuir com conhecimento e conscientização."

Aquele argumento era suficiente e, se eu pertencesse àquele lugar, teria encarnado a futura farmacêutica e feito isso. Contudo, não me via como "a futura farmacêutica". Eu não dava àquilo o enfoque merecido.

Então resolvi trancar o curso e refletir.

Eu sei que o texto ficou longo e repetitivo em algumas partes; o motivo por não ter resumido um pouquinho mais (vai, Bárbara, um dia você chega lá) é porque sei como é essa crise e sei que muita gente procura no google textos a respeito. Muita gente quer refletir a respeito disso e quer saber a experiência de outras pessoas. O objetivo nessa primeira parte era mostrar como é diferente não estar satisfeito com o curso, como é paralisante isso - e como você acaba se isolando de sua classe por isso.

Tenho essa crença de que, para todos nós, há um espaço no mundo. Às vezes, é difícil acreditar nisso e pode bater um leve desespero, especialmente quando racionalizamos demais; só que nossa racionalização pretensamente correta é atravessada por nossos medos, então nem mesmo nosso julgamento mais austero é isento de paixão. Tendo isso em vista, a "metafísica" que levo para a vida e que me conduz adiante todos os dias é essa crença de que há sempre um espaço para cada um de nós. Se não estamos satisfeitos com o que estamos fazendo, há uma coisa muito errada. 

Não acredito nessa idéia de separar radicalmente o profissional do tempo livre; de escolher um trabalho razoavelmente tolerável para que a felicidade se encontre no tempo livre, nas horas vagas.

Para mim, uma vida completa é uma vida em que o trabalho e o tempo livre se misturam. E não me arrependi ainda de ter essa crença.

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